O Apotecário que Deus Semeou

Há uma despensa na minha cozinha que cheira a Verão mesmo em Janeiro. Abro a porta e encontro, alinhados na prateleira, os frascos de vidro: a camomila seca num, as folhas de cidreira noutro, um pouco de tomilho que colhi antes das primeiras geadas. Quando um dos meus filhos adoece, é a esta despensa que vou primeiro. Ponho água ao lume, deito a erva na chávena, e espero. E enquanto espero, penso muitas vezes na quantidade de mães que, ao longo de séculos, fizeram exactamente este gesto, com estas mesmas plantas, nesta mesma paciência.

Não inventei nada. Recebi.

É daqui, deste gesto pequeno e antiquíssimo, que quero partir para vos falar de naturopatia. Não como uma moda, não como uma alternativa contra qualquer coisa, mas como uma forma de olhar para o corpo, para a doença e para a criação que é, na verdade, muito mais velha do que aquilo a que hoje chamamos moderno.

O Que É, Afinal, a Naturopatia

A palavra é comprida e um pouco intimidante, mas o que ela guarda é simples. Naturopatia vem de duas raízes: natura e pathos, a natureza e aquilo que padecemos. Poderíamos traduzi-la, com alguma ternura, como a arte de acompanhar a natureza no seu trabalho de cura.

No centro de tudo está uma intuição antiga, que os médicos gregos já nomeavam: a vis medicatrix naturae, a força curadora da natureza. A ideia de que o corpo não é uma máquina avariada à espera de conserto, mas um organismo vivo que tende, por si mesmo, para o equilíbrio e para a saúde. Uma ferida fecha-se sozinha. Um osso partido volta a soldar. A febre sobe para combater aquilo que nos ameaça. O corpo sabe coisas que nós, com toda a nossa ciência, apenas começamos a compreender.

A naturopata não substitui esta força. Serve-a. Cria as condições para que ela possa fazer o seu trabalho.

Os Princípios que a Sustentam

Há alguns princípios que atravessam esta forma de cuidar, e vale a pena demorarmo-nos neles, porque são mais uma sabedoria do que uma técnica.

O primeiro é aquele que já nomeei: confiar na força curadora da natureza, e não trabalhar contra ela. Muitas vezes, curar é sobretudo não atrapalhar.

O segundo é procurar a causa, e não apenas silenciar o sintoma. Uma dor de cabeça que volta todos os dias não se resolve verdadeiramente calando a dor, dia após dia. Alguém que a queira compreender há de perguntar como dorme aquela pessoa, o que come, o que carrega, o que a preocupa. A doença, tantas vezes, é uma linguagem. E a naturopatia gosta de escutar antes de mandar calar.

O terceiro é tratar a pessoa inteira, e não um pedaço isolado dela. Não existe um estômago separado de quem o habita. O corpo, a alma, o sono, o alimento, as afeições, a fé, tudo se entrelaça. Somos uma unidade, não uma soma de peças.

O quarto princípio é talvez o mais bonito, e o mais esquecido: primum non nocere, primeiro, não causar dano. A prudência de começar sempre pelo mais suave, pelo menos invasivo, pelo mais próximo da natureza. Escolher a intervenção mais gentil antes da mais violenta.

O quinto é o da prevenção. Cuidar antes de adoecer. Comer bem, dormir, mexer o corpo, apanhar sol, respirar ar limpo, viver com alguma ordem e alguma paz. Coisas simples, que a pressa do mundo tornou estranhamente difíceis.

E o sexto, que me comove sempre, é o do médico como mestre. A palavra doctor quer dizer, na origem, aquele que ensina. Quem cuida bem não cria dependência: ensina a pessoa a cuidar de si, devolve-lhe alguma autonomia sobre a própria saúde. Isto é, no fundo, uma forma de respeito.

A Arte Antiga do Herbalismo

Dentro deste modo de olhar, o herbalismo ocupa um lugar de honra. É a arte de usar as plantas para cuidar do corpo, e é, provavelmente, a medicina mais antiga do mundo. Muito antes das farmácias, antes dos laboratórios, houve mulheres e homens que conheciam os campos como conhecem hoje as prateleiras de um supermercado. Sabiam que planta acalmava a tosse, qual limpava uma ferida, qual trazia o sono.

Este saber não se perdeu inteiramente. Atravessou os séculos sobretudo pelas mãos de duas guardiãs improváveis: as avós e os mosteiros. Nos claustros medievais, os monges e as monjas mantinham os seus jardins de simples, os horti onde cultivavam plantas medicinais, e escreviam pacientemente aquilo que observavam. Santa Hildegarda de Bingen, abadessa beneditina do século doze, deixou-nos páginas inteiras sobre a virtude curadora das ervas, do funcho à salva, e via em cada planta um reflexo da bondade do Criador. Para ela, a terra não era um armazém a explorar, mas um livro a ler.

Há aqui, creio, algo profundamente cristão. A ideia de que Deus não nos deixou desamparados, de que semeou, na própria criação, os remédios de que precisaríamos. As plantas que crescem à beira do caminho não estão ali por acaso.

Por Que as Plantas Não São Comprimidos

Chego agora a uma pergunta que me fazem muitas vezes: se um medicamento moderno também vem, tantas vezes, de uma planta, qual é então a diferença? A aspirina não nasceu do salgueiro? A morfina da papoila? É verdade. E a pergunta é justa.

A diferença está sobretudo no modo.

Quando a ciência moderna estuda uma planta, procura nela a molécula activa, aquela única substância responsável pelo efeito. Isola-a, concentra-a, purifica-a. Fica com um princípio potente, rápido, previsível, e por isso mesmo precioso, sobretudo nas situações graves e urgentes onde a força e a rapidez salvam vidas. Sou a primeira a agradecer a Deus por essa medicina existir.

Mas a planta inteira é outra coisa. Numa folha de camomila não há apenas uma substância: há dezenas, centenas, que trabalham em conjunto, umas moderando as outras, umas ajudando o corpo a absorver as outras. A esta cooperação chama-se sinergia. É como a diferença entre uma nota isolada e um acorde. A planta inteira actua mais devagar, mais suavemente, muitas vezes de forma menos espectacular, mas também com menos violência e menos daqueles efeitos secundários bruscos que nascem justamente de concentrar demais uma só coisa.

Há ainda outra diferença, mais subtil. O herbalismo tradicional não pergunta apenas que doença é esta, mas quem é esta pessoa que adoece. O mesmo mal-estar pode pedir plantas diferentes conforme o terreno de cada um, o seu temperamento, o seu frio ou o seu calor. Não se trata de atacar a doença como se ataca um inimigo, mas de reequilibrar um corpo que se desalinhou.

Convém dizê-lo com clareza e com humildade, porque a prudência também é uma virtude. As plantas são gentis, mas gentil não é o mesmo que inofensivo, e suave não serve para tudo. Uma infecção grave, uma dor que não passa, um sintoma que assusta, uma criança que não melhora, uma doença séria: nada disto se resolve com um chá. Aí chama-se o médico, e agradece-se que ele exista. A verdadeira sabedoria não está em escolher sempre a planta contra o comprimido, mas em saber, com serenidade, quando cada um tem o seu lugar. A naturopatia acompanha a medicina, não faz guerra contra ela.

Começar, Devagar, o Nosso Apotecário

E chego àquela despensa com que comecei. Porque tudo isto, para ser verdadeiro, tem de descer à cozinha, tornar-se gesto, tornar-se casa.

Montar um pequeno apotecário caseiro não exige grande coisa. Exige, isso sim, começar devagar, com poucas plantas bem conhecidas, e ir aprendendo cada uma com calma, como se conhece um vizinho. Vale mais dominar cinco ervas do que possuir cinquenta frascos que não sabemos usar.

Eu começaria pelas mais mansas e amigas, aquelas que quase todas as nossas avós tinham. A camomila, para acalmar o estômago aflito, os nervos e o sono das crianças. A tília e a erva-cidreira, para as noites em que o corpo não descansa e a cabeça não se cala. A hortelã, para a digestão pesada. O tomilho, companheiro fiel das constipações e das gargantas roufenhas, que se pode beber em chá ou respirar em vapor sobre uma bacia de água quente. O sabugueiro em flor, para os primeiros arrepios da febre. O gengibre, quente e reconfortante, para as náuseas e para os dias frios. E a calêndula, essa flor cor de sol, que se transforma numa pomada suave para peles irritadas e pequenos arranhões.

A forma mais simples de as usar é também a mais antiga: a infusão, aquilo a que chamamos, sem cerimónia, um chá. Água a ferver deitada sobre a erva, uma tampa por cima para não fugir o aroma, e alguns minutos de espera. As flores e as folhas gostam deste tratamento delicado. As raízes e as cascas, mais duras, pedem que se deixem a fervilhar um pouco, e a isso chama-se decocção.

Aos poucos, pode aprender-se a fazer mais. Uma tintura, que é uma planta deixada a repousar em álcool durante semanas, para se guardar por muito tempo. Um óleo macerado de calêndula, feito ao sol, que depois se transforma em pomada com um pouco de cera de abelha. Um mel de tomilho para a garganta. São gestos que se aprendem com o tempo, sem pressa, quase como quem aprende a fazer pão.

E talvez o mais importante, mais do que qualquer frasco, seja este: guardar sempre o nome de quem sabe mais do que nós. Um naturopata, um herbalista experiente, um farmacêutico atento, um livro sério. As plantas conversam com os medicamentos que já tomamos, algumas não convêm na gravidez, outras não são para crianças muito pequenas. Perguntar não é sinal de fraqueza. É sinal de respeito por aquilo que estamos a manejar.

A Humildade de Quem Recebe

Volto, no fim, à minha despensa que cheira a Verão. E dou-me conta de que aquilo que ali guardo não é, verdadeiramente, um arsenal contra a doença. É uma forma de gratidão.

Cuidar da saúde com as plantas, a par com a medicina que Deus também inspirou aos homens, é reconhecer que não somos os donos do nosso corpo, mas seus guardiães. É lembrar que fomos feitos da terra, e que a terra continua a falar connosco, a oferecer-nos, ano após ano, aquilo de que precisamos. É aceitar a nossa pequenez de criaturas, e descobrir que essa pequenez, longe de ser uma pobreza, é um lugar seguro.

Há uma paz muito serena em preparar um chá para um filho com febre, e saber que naquela chávena está o Verão inteiro, e o trabalho das abelhas, e a chuva de Abril, e a mão de tantas mães antes de mim, e, no fundo de tudo, a bondade paciente de Quem semeou as ervas nos campos antes mesmo de saber que eu iria precisar delas.

Não inventamos a cura. Recebemo-la. E, com humildade e gratidão, passamo-la adiante.

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A Necessidade de Modéstia