A Necessidade de Modéstia

Tem havido, nos últimos tempos, um regresso à conversa sobre a modéstia. Numa realidade que promove e normaliza a promiscuidade, a exposição excessiva e a falta de pudor, a modéstia é uma realidade que choca. Mas, como em quase tudo, creio que aquilo que presenciamos agora é o efeito inevitável do boomerang. Depois de décadas a explorar o extremo oposto, aquilo a que se costuma chamar "ultra-conservadorismo religioso", começamos a perceber que a solução também não estava na desresponsabilização, na relativização e na profanação da realidade.


Ao contrário do que se pensa, a modéstia tem pouco a ver com a roupa e tudo a ver com a moral. A roupa não define a modéstia: é a modéstia que define a roupa. E ainda que a forma de vestir seja uma parte evidente e integrante desta virtude, a modéstia não se limita nem se resume a isso. Para além de virtude, é uma questão moral, civilizacional e doutrinal.

O Corpo Como Templo

Como mulheres cristãs, reconhecemos que o nosso corpo é templo do Espírito Santo. Por isso a maneira como nos vestimos revela ao mundo aquilo que pensamos sobre nós mesmas, sobre Deus e sobre os outros. Foi através da roupa que a revolução sexual decidiu ridicularizar e destruir a modéstia, na década de sessenta. E é hoje urgente recuperar esta identidade que nos permite viver a feminilidade no que ela tem de mais fundamental.


Mas se a modéstia se corrompeu, foi porque antes perdêramos toda a noção e necessidade de pudor. O pudor é a atitude que procura preservar e proteger a intimidade da pessoa e do seu corpo, em tudo o que ela faz. É uma disposição interior, muito antes de se refletir no exterior. E, por experiência própria, vejo como o pudor também nos chega pela graça de Deus. Tendo crescido com muito pouco pudor durante quase toda a vida, reconheço de forma gritante como esta foi uma das predisposições que mais radicalmente mudou em mim na conversão. Não porque tivesse passado a achar o meu corpo mau ou motivo de vergonha, mas porque percebi o templo sagrado e o dom que ele era. Quem é que, tendo um tesouro, o expõe para que qualquer um o possa profanar ou roubar? Compreendi que a minha dignidade e o meu valor não dependiam do número de elogios que recebia, nem da exposição que fazia, mas da dignidade que eu própria refletia. O meu valor não dependia dos outros: era meu muito antes de o saber.

Adornar com Reverência

Há uma passagem de que gosto especialmente, na Primeira Carta de São Paulo a Timóteo: "As mulheres devem aparecer em vestuário decente, adornando-se com modéstia e sobriedade." A palavra adornar diz-me tudo. Mostra que o corpo é para ser tratado com reverência e que, dentro da decência, a beleza pode e deve ser parte integrante desta apresentação. Cuidarmos de nós e estarmos bonitas não é necessariamente um ato de vaidade, se o fizermos para refletir a beleza de Deus e para sermos fonte de bondade e de verdade para os outros.


Uma das maiores mentiras que nos venderam foi a de que a evolução da roupa para uma categoria mais unissexo se deveu ao conforto e à praticidade. A motivação verdadeira era, porém, ideológica. A sua causa final era apagar a distinção entre o homem e a mulher. E a razão por que o corpo da mulher deve ser mais resguardado do que o do homem não tem nada de patriarcal. Pelo contrário: nasce de um fundamento profundamente espiritual. O corpo feminino é, em certo sentido, mais sagrado do que o masculino, porque é capaz de dar vida a um novo ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus e animado por uma alma imortal que durará por toda a eternidade.

Ensinar os Filhos a Guardar o Tesouro

Temos o dever de educar os nossos filhos para a modéstia, rapazes e raparigas, desde pequenos. Não banalizar a nudez, não fomentar brincadeiras que profanam a intimidade, não tratar o corpo como um meio para atingir um fim e muito menos como fonte de liberdade ou de libertinagem. Vivemos com níveis assustadores de abuso infantil, em que os predadores se aproveitam da inocência dos mais vulneráveis. Que saibamos, em casa, transmitir aos nossos filhos a importância do pudor e da modéstia, pelo dom sobrenatural que ambos representam.

PS: Se gostarias de aprofundar o teu conhecimento sobre a doutrina católica tradicional, a feminilidade e a família, ainda há 20 vagas disponíveis na minha comunidade. Carrega aqui para te inscreveres. As aulas são ao vivo, todas as semanas, e ficam, claro, gravadas.

Anterior
Anterior

O Apotecário que Deus Semeou

Próximo
Próximo

A Necessidade de Uma Comunidade Feminina