Num mundo de Evas, sê Maria.

Quando penso na minha conversão, torna-se evidente o paralelismo entre Eva e Maria na minha vida. Eva, pela desobediência, levou a que toda a humanidade caísse; Maria, pela obediência, levou a que toda a humanidade fosse redimida. Se foi pela decisão de uma só mulher que o mundo caiu, também foi pela decisão de uma só mulher que o mundo se ergueu.

Vinda da Nova Era, eu era uma Eva. Não em consciência, pois pouco ou nada sabia sobre a doutrina da Igreja, mas era-o em vontade e em modo de vida. Acreditava ser criatura e criadora ao mesmo tempo. Pensava que o universo era feito de uma energia impessoal que eu podia moldar e influenciar, para manifestar aquilo que me agradasse. Via-me como o princípio e o fim de todas as coisas: se algo estava errado, era pelo autodomínio que o havia de resolver; se tudo estava certo, era graças à elevação da minha consciência. E é este, também, o comportamento que observamos em Eva. O desejo de ser como Deus, de aceder ao visível e ao invisível, levou-a a privar-se da graça e a confiar apenas nas suas próprias forças. Mas, ao contrário de Eva, eu não conhecia o poder redentor nem o amor misericordioso de Cristo, e por isso não reconhecia o limite do meu poder e da minha influência sobre a realidade. Foi preciso sofrer de uma ansiedade extrema para ser confrontada com a minha fragilidade e com a minha incapacidade.

Depois da minha conversão, os efeitos de passar da desobediência e de uma mentalidade criadora para a obediência foram imediatos e evidentes. A primeira coisa foi a paz que me invadiu. Deixei de sofrer da ansiedade crónica que me paralisava havia mais de três anos. Embora ainda tivesse muitas perguntas por responder, sentia paz e certeza no meio do caos. Penso que com Nossa Senhora terá acontecido o mesmo. Quando o anjo lhe anunciou a chegada de Jesus e ela deu o seu Fiat, também ela teria muitos medos e muitas perguntas por responder, e ainda assim encontrou no seu coração a paz e a certeza de que aquela era a decisão certa.

Foi através de Maria que comecei a perceber o valor do serviço, do silêncio e da abnegação de mim mesma. Depois de acreditar, durante uma vida inteira, que o meu valor estava naquilo que eu fazia, no que os outros pensavam de mim e na minha capacidade de controlar, Nossa Senhora mostrou-me o oposto. Mostrou-me que, quando somos fracos, então é que somos fortes, porque é o próprio Criador que atua através da nossa fraqueza e nela se manifesta em todo o seu esplendor. É quando servimos e saímos de nós que encontramos a felicidade e o amor infinitos para os quais fomos criados, e que tentar realizá-los em nós e por nós é demasiado pequeno e demasiado limitado. E é sobretudo na contemplação e na oração, quando nos deixamos moldar por Deus, que encontramos a paz e a alegria que ultrapassam todo o entendimento.

Num mundo que quer cultivar Evas, donas de si, autossuficientes e fechadas no que é material, queiramos nós ser Marias. Marias que reconhecem que, quando entregam a sua pequenez a Deus, é Ele quem faz maravilhas; e que é no serviço silencioso e humilde que encontramos o nosso maior propósito e a nossa maior alegria. Que a vida, ainda que material, se realize de forma sobrenatural.

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